quarta-feira, 21 de outubro de 2009
A máquina de abraçar
Peça sobre autismo é algo raríssimo. Daí o interesse especial por "A máquina de abraçar", em cartaz no Espaço Tom Jobim, no Rio. Barbara Heliodora disse maravilhas no "Globo", o que aumentou a expectativa. Não achei tão boa assim, mas há momentos bonitos.
O espanhol José Sanchis Sinisterra se inspirou na história da americana Temple Grandin, paradigma da autista bem-sucedida, criadora de uma máquina de abraçar para se sentir confortada sem precisar de toques alheios. Em vez de animais (Temple criou um sistema para atenuar o sofrimento do gado na hora do abate), o amor de Iris é pelas plantas.
Miriam Salinas (Marina Vianna), a terapeuta de Iris, dá uma palestra sobre seu trabalho, na qual mostra gradativamente sua ambiguidade: quer expor as conquistas de sua paciente e "amiga", mas também quer manipulá-la, levando-a a dizer frases já ensaiadas e perdendo a calma quando as coisas saem do eixo.
Iris (Mariana Lima) mostra características tipicamente autistas no início de sua participação, mas faz gestos e diz palavras inesperadas quando fica sozinha em cena, melhor momento do espetáculo (e da atriz).
Não há propriamente um mergulho no autismo, um conflito do tipo psicanálise x behaviorismo, nada dessas coisas que latejam na cabeça das pessoas ligadas a autistas. Os temas predominantes da peça são as dificuldades de comunicação entre as pessoas, os exercícios de poder, a liberdade (ou não) para dizer e fazer o que se quer. O autismo é um ótimo assunto-pretexto para uma história assim.
O trabalho de Mariana é bem bonito, mas é curioso como não dá para se avaliar pelo viés da verossimilhança alguém que representa um autista. É tão peculiar um autista, tão diferente de todas as outras pessoas e de todos os outros autistas, que desejar qualquer tipo de imitação é impossível. Não enxerguei Henrique nem outros autistas que conheço em Mariana. A ficção não dá conta desse universo tão absurdo, um tanto encantador mas profundamente assustador, do autismo. Ao menos no caso, um artista faz uma criação, não uma representação, digamos.
Talvez não tenha me emocionado muito por não enxergar Henrique no palco. Egocentrismo, deve ser. Ou, talvez, a minha realidade seja mais incômoda do que a maioria das ficções possíveis sobre o tema (pensamento também egocêntrico). Mas o espetáculo dirigido por Malu Galli tem seu poder de comoção, como era possível perceber em parte da plateia, e contribui para que se iluminem esses seres que precisam tanto de luz.
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3 comentários:
A sorte de Henrique é que ele não precisa de uma "máquina de abraçar", pois tem esse aconchego de forma completa, sincera e comovente, mesmo que só por um mês no ano, nos braços do seu fantástico pai.
Sigo sempre seu blog. Também tenho um filho autista, agora com 16 anos,mas ele, ao contrário de Henrique, desde que foi diagnosticada a síndrome, viu o pai desaparecer da sua vida para nunca mais voltar. Mas sobrou amor de minha família e amigos por ele. Como sobra para Henrique.
E as férias se aproximam. É quase tempo de matar saudades imensas, não é?
Um abraço.
Silvia
Rapaz, que coisa linda esse seu blog! caí aqui de "paraquedas" em busca de informações genéricas por um assunto que não faz parte de meu cotidiano.. Mas me senti próximo de voce, que se expressa tão bem e fico imaginado como deve ser importante essa forma de expressão. Cara, parabéns pela lucidez e pela emoção.Siga em frente e seja feliz. Torcendo aqui.
Olá Luiz! Animada pela ótima leitura que encontrei na sua indicação de "olhe nos meus olhos", há alguns dias, quando fui comprar outro livro, me deparei com "Sinto-me só", que trata do tema, mas pela ótica do irmão do autista. Lembrei-me de vc quando comentou em algum post recente sobre como seria se Henrique tivesse irmãos. Pensei em recomendá-lo a você (caso já não o conheça), mas agora estou chegando em uma fase do livro em que o autista em questão está entrando na adolescência, gerando uma crise familiar sobre os cuidados com ele. Enfim, como leitora (e com ótica de mera observadora), o livro é denso, triste. Acho que para você, como pai de um autista, seja insuportável...
Um abraço
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